• 6 janeiro, 2021

Caramelo, de Nadine Labaki (Líbano, 2007)4 min

Caramelo foi um dos primeiros filmes publicados no Cine Garimpo. Escrevi sobre ele há 10 anos e, desde lá, muita água rolou debaixo da ponte – praticamente uma enxurrada. Me transformei em outra pessoa, graças a toda essa água que foi levando o que já não servia, trazendo o novo. Movimento contínuo, encerrando o que já não seria mais aceito, trazendo à tona o que estava submerso.

Dizem que o rio nunca bate igual na mesma pedra. É verdade. Com a gente, é a mesma coisa – ou deveria ser. Nossas experiências nos transformam, mudam nossa maneira de ver o mundo. Nos castiga e nos ensina; nos faz sofrer e nos capacita; nos decepciona e nos surpreende. A única certeza é que a água corre debaixo da ponte e as mudanças são inevitáveis. O que nos cabe é decidir o que fazer com o que a vida faz com a gente.

(Re) Visitar

Tudo isso pra dizer que revisitei Caramelo, esse filme amoroso e doce da cineasta libanesa Nadine Labaki, passada uma década. Rever filmes é sempre uma surpresa quando fazemos a conexão entre quem éramos quando assistimos, e como é nosso olhar hoje diante da mesma história. Pensar que entramos em 2021 depois da experiência de 2020 me fez pensar no filme como quem decide o que fazer com isso.

Caramelo conta a singela história de cinco mulheres, com o pano de fundo do cabelereiro Si Belle, em Beirute – cidade em que muçulmanos e católicos convivem, em que a língua francesa é onipresente e se mistura com o árabe o tempo todo, em que as tradições patriarcais são fortemente marcadas. Layale (representada pela própria Nadine Labaki, que também é atriz) é dona do cabelereiro, vive escondida num romance com um homem casado e não tem olhos pro olhar apaixonado do charmoso policial; Nisrine é funcionária do salão de beleza, está de casamento marcado e precisa esconder do noivo que não é mais virgem; Rima, também funcionária, vive sua sexualidade de forma diferente das outras, encantada que é por mulheres; Jamale foi abandonada pelo marido, sonha em ser atriz e ainda acha que aparência é tudo o que importa; e, finalmente, Rose – uma senhora costureira que cuida da irmã e precisa pensar se ainda lhe cabe a função de ser feliz na vida.

(Re) Conhecer-se

Nadine Labaki, diretora também do potente Cafarnaum (filme de que falei aqui na coluna anteriormente), é talentosa e sensível em Caramelo a ponto de criar uma intimidade entre nós, espectadores, e cada uma das personagens. Faz um recorte do momento dessas mulheres, num exercício cinematográfico de luz e cores, da câmera que fecha em um detalhe, do olhar que fala mais que palavras, da cumplicidade. Mas também num exercício de observação do comportamento humano, na questão universal do autoconhecimento como pré-requisito para fazer escolhas acertadas. No riso, nas sutilezas das mulheres, na sororidade nos aconchegamos nesse lugar interno do humano, que passa pelos perrengues, que tem dúvidas e erra, que conta com o outro pra superar as dificuldades e olhar para si com quem decide se (re) conhecer e se transformar.

(Re) Começar

A paleta de cores é cor de caramelo, da cera de depilação. Que combina com a doçura que há nos recomeços, nas descobertas do que somos e na esperança do caminho que queremos trilhar no futuro. Caramelo não tem uma história extraordinária, nem os personagens vivem dramas fora do comum. Assim como nós – ordinários, começando mais um novo ano. Na busca pela doçura nossa de cada dia, cada vez que águas passarem debaixo das nossas pontes.


Suzana Vidigal é tradutora, jornalista e cinéfila. Gosta de pensar que cada filme combina com um estado de espírito, mas gosta ainda mais de compartilhar com as pessoas a experiência que cada filme desperta na mente e na alma. Em 2009 criou o blog Cine Garimpo (www.cinegarimpo.com.br e @cinegarimpo) e traz, quinzenalmente, dicas de filmes pra saborear e refletir. 

FONTE: Vida Simples